Cobertura do Mercado Público de Florianópolis

Há, no contexto onde se insere o projeto, uma multiplicidade de tempos concomitantes, pautados nos últimos 160 anos pela afluência de usuários ao Mercado Público de Florianópolis, cuja história inclui demolições, mudanças de local, renovações diversas, e a participação ativa de gerações de consumidores, vendedores e administradores. A nova cobertura para o vão central configura-se, então, como mais um elemento nessa narrativa, e como tal deve respeitar e adicionar ao existente sem tornar-se irrelevante ou caracterizar-se como mero fechamento. Cria-se uma nova escala, protegida dos elementos, com o intuito de suportar adequadamente novas histórias complementares: feiras temporárias, apresentações culturais, festividades, projeções, desfiles, etc.  

“É preciso ser leve como o pássaro e não como a pluma.” ` 

Por tratar-se essencialmente de projeto arquitetônico composto por uma superfície que pousa sobre o contexto existente quase sem tocá-lo, a premissa da leveza, entendida como precisão e determinação, é condicionante fundamental. A leveza, assim percebida, não está vinculada meramente à uma ausência de peso do sistema construtivo, mas a uma certa tensão entre a força da gravidade e as peças de aço em forma de “V”, que encontram-se suspensas, à pairar fixamente um pouco acima da cota dos telhados existentes de maneira a criar um vazio por onde o ar circula livremente. Para realizar tal composição, buscou-se um sistema que permitisse a execução de grandes vãos com um mínimo de componentes e cujo arranjo é resultado de um pensamento simples: a localização dos dois pontos de apoio distantes 36m entre si deveria dar-se ao longo do eixo central alinhado aos pilares existentes, de modo a se manter a configuração do espaço existente, e se evitar que as novas fundações gerem interferências perigosas ao embasamento do edifício histórico. Sobre os mencionados pilares apoia-se, então, uma viga principal em perfil retangular onde conectam-se vigas intermediárias, inclinadas em direção à calha central e distanciadas umas das outras em vãos de 11,4m.

A última camada da cobertura consiste em uma membrana leve e de grande resistência, a qual pode ser retraída através de um sistema automatizado no qual vigas deslizam por trilhos conforme a tração de correntes de transmissão acionadas por motores, "sanfonando" o tecido nas extremidades da cobertura. Tal sistema permite o recolhimento da camada de proteção superior possibilitando a visualização desobstruída do céu e do edifício existente.

Conforma-se, assim uma proposta que busca lidar de maneira respeitosa com a multiplicidade da história do Mercado Público de Florianópolis, atentando, porém, para que tal intervenção feita de maneira precisa, possa potencializar o espaço como lugar democrático de encontro e convivência.

` VALÉRY, Paul. Choses tues. Cahier d'impressions et d'idées. Paris, Éditions Lapina, 1930 Apud CALVINO, Ítalo. Seis propostas para o próximo milênio. São Paulo, Companhia das Letras, 1990)

Local: Florianópolis, Santa Catarina - Brasil
Ano do projeto: 2014 
Ano da construção: 2016
Área: 1.015,00 m2 

Autoria: Pedro Duschenes, Gustavo Utrabo

Equipe: Bárbara Zandavali, Ana Julia Filipe, Maguelonne Gorioux, Felipe Gomes, Ágatha Linck

Colaborador: Eng. Sandro Norio Oyama

Projeto Estrutural: Andrade Rezende Engenharia de Estruturas

Projeto de  Automação: Solar System

Instalações:  Prosul Engenharia

Construção: Esphera Sul

Fotos: Felipe Russo